sexta-feira, 25 de maio de 2012

A vida é vela

A vida é uma vela.

É no olho do velho que vi
que viver é morrer.
Ter pressa pra quê?

Aproveitar a vida nos faz 
desperceber o giro atroz da seta,
que pára (pra nós), no bater do último sino.

Por isso, sou mais chegado ao Spencer que ao Horácio.
Esse frenesi de querer matar o tempo...
Aproveitar a vida é fazê-la mais curta.
No tédio jaz a chave de uma vida rendida, apesar de também morrida.

A escolha do ser humano:
Gozar, saciar as vãs e vis vontades da vida e encurtá-la
ou alimentar-se da monotonia pra sentir cada passo dado, sem curti-la (ou seja, alonga-la). 

Em ambas as escolhas, a certa verdade:
Viver é morrer (Thanks James),
A sina de todos nós, cadáveres adiados (Grato Fernando).
Todo dia, por mais que você vive, você está morrendo.

Então, se não teme, (en)curta a vida...
Mas lembre-se:
Matar o tempo é matar a nós mesmos e,
no fim, o Carpe Diem não passa de um insano suicídio...

Sário Ferreira - 25/05/2012


















Carpe Diem, de Caspar David Friedrich

     To live is to die - Metallica





segunda-feira, 21 de maio de 2012

Dieu Prière (um Triste)

Sade dit-moi
Um homem traça
rumo à desgraça,
devora as páginas
do tomo que é dono
Farta-se do próprio destino
que o abdica ao soar do sino
Sádico, dirá?

Qu'est-ce que tu vas chercher?
Desejas é o desejo
Vossa sina atormentada
de querer ver o que vejo:
pouco, muito, tudo e nada
Avante à estrela incoerente
qual fome em luz que irá arder-te

Le bien par le mal
Maniqueística clemência
cuja cesta recolhe olhos,
secos, chaves em demência,
confusão de dor em molhos:
neles provem o sal

La vertu par le vice
Pecaminosos passos certos
do conflito, o avesso sacro
no perverso pur(o)umano ethos
E tu falta como se risse

Sade dit-moi pourquoi l'evangile du mal?
Bastasse o graal violado de Eva
pelo réptil e fogo suor da treva
Sabe-se: conheça-te a astucia pra ser banal

Quelle est ta religion où sont tes fidèles?
Qual oração chagada estupra a razão
e regenera a lepra de existir: o tão reles?

Si tu es contre Dieu, tu es contre l'homme
Encontra-se o eu para ser contra si!

Sad(ico)e es-t(ou)(em ti) diaboli(co)que (e)ou divin(o)?(!)

Sário Ferreira - 21/05/2012


 
Sadeness - Enigma

domingo, 29 de abril de 2012

Sonnet Unlistened: Unsound

So far, so close
a question flows
inside a head
with silence doubt.

World goes ahead
through furious red,
spreading fault,
cruelty in shine.

The fate is a crime,
strong fragile rose:
a blood burst o'rhyme.

So distant in close,
we keep on being led.
Mute quest made of noise.










Sário Ferreira - 29/04/2012

Ciclo

        Nasce              euq
                                        é
   e                  o                   t
       s                               a
         rerrom       Homem










Sário Ferreira - 28/04/2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

Descartável

Insisto, logo existo.
Existo logo nisto.
Nisto logo inexistirei.
Hei!

(Se é) Logo, logo invisto.
Invisto logo nisso.
Nesse logo que não sei.
Ei...

Não sei, logo saberei.
Saberei logo... logo, não! Cruzes!
Cruzes a ti mesmo, logo ou não, e há de ser
Rei.

Nada, nada,
Nada sei
De cruzes e logos e seres e rei.
Nada deriva do peso dispenso
Que faz-me existir de tanto que penso.

Sário Ferreira - 09/03/2012

quarta-feira, 7 de março de 2012

Zonódia

João Pestana, acalenta-te a ti próprio e para de incomodar.
Melhor, dorme João e deixa o Pestana ficar,
Com ele e mais seis, cantaremos a ode ao teu fracasso,
No ezcuro, claro, e até o claro vazar em furo
por nuvenz insones, quem você não alcança
E aszim, ainda que insizta no zeu zadizmo,
zimulando difuntoz e cadáverez, vamoz cantar, zerenatar
Zem zezzar, zempre zaindo do zeu dezejo de realizar
a inconzzienzia doz dezpertadoz dezezperadoz.
Inzano, ezorzizar-me doz todoz meuz
Zonhoz de dezdezpertar-me
Zono, ze zuma no zom!
Z..zim? Zzzai! Zai...
Zzzou... zzzeu.
Zzzzzzz.

Sário Ferreira - 07/03/2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Penal

É uma pena.
É uma pena que não escreve.
É uma pena que não escreve nem sobre pena.
É uma pena que não escreve nem sobre pena, porque não vale a pena.

Que pena.

Que pena? Tem pena?

Então se pena não há, como a pena escreve sobre uma apena que não está lá?
Apesar da apena, a pena dá conta - ela escreve sobre tantos outros a's...
Porém, o grande problema é que nem essa pena há.
Não há pena alguma.
Ninguem sente a pena.

Apenas,
não há penas.


Sário Ferreira - 16/02/2012.