sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Maniqueísmo

O mal mal percebeu um dia que não era mau 
até bem saber que seu amigo bem 
bem estava equivocado que só era bom: 
mal discutiu mal o assunto mau com o bem, 
e, por conta de um conflito mal resolvido, 
ficaram bem maus os dois. 

O mal bem acreditava que não era mau, 
mas o bem mal cria na acusação de que não era bom. 

O bem pensou: como posso ser mau assim sendo tão bom? 
Mau é o mal por me achar mau.

O mal pensou: como o bem pode ser só bom se não aceita que é mau? 
Bom sou eu que me sei mau, sem ser mau em contradizer o bem mau.

Não mais se falaram:
O bem mau com a dúvida,
O mal bom com a certeza.

E nunca se acordaram.

Sario Ferreira - 10/01/2014


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Meios

Exausto e sozinho, ele olhou para o pico da montanha, então para o sopé...
Pensou alto e falou baixo:

"No fim, qual princípio determina o que é o começo e o final?"

"O meio." Respondeu-lhe.

Olhou e viu uma pedra.

Mal tinha percebido ele,
Com retinas que um dia se fatigariam,

Que no meio do caminho
Tinha uma pedra.

Quando, na verdade, ele,
no meio da pedra,
buscava um caminho.

Sário Ferreira - 25/10/2013


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Paralesia

Ali, milimétrica,
moderou-nos a distância.
Eu queria e ela também,
mas um par de extremidades
afastava pescoços;
a ponte em régua
que nos media a resistência
acalentava a vileza frustrada
que nos conectava,
que nos separava.

A régua da mágoa,
a Regra sobr'água
de lágrimas que não caíram,
que não cairão,
mas que cairiam
se fossem as medidas
distintas, em outro universo
matemático de probabilidades em verso.

Irônico é que a régua que me regra,
aqui, entre devaneios caotizados,
segue a minha régua sem regras.
E cá estou eu, entre ti e seus números:
eis minha vingança,
inofensiva
e incalculada.

Sario Ferreira - 05/11/2012




segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Santa Natureza Humana

Quem dera eu, se eu não morresse em redundância
pra renascer no segundo seguinte,
até o fim de minha vida.
Presos em nossas essências, somos vários em só um,
fadados às paixões contra alvos inabsolutos e inconstantes:
Ser(es) Humano(s)!

Ser(d)es além de humano(s); Ser(d)es Efêmero(s); Ser(d)es Passageiro(s).
– Um rio não banha o mesmo homem duas vezes
(Assim disse um anjo amigo).
O que é junto, se separa
e mesmo o que é junto a ponto de ser santo
fende-se, porque o ser santo é ser separado (mas junto).

Mas não é o fim,
é só uma transição
de um junto a outro,
sem ressentimentos reticentes ou traição,
porque tudo junto é separado
e separado é tudo junto
(segundo a sábia anedota).

É no dividir que realizamos a verdadeira noção do inteiro
que fomos, somos e seremos:
Sejam nas lembranças passadas,
presentes (preciosos!)
ou futuras...

Sário Ferreira - 22/10/2012


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Disfarces

Face para amar
Face a familiar
Face pra amigar
Face a sabiar
Face engana a dor e
Outra Face endoura a trama.

E há no leito da mestra cama
uma Face para o sono,
que faz-se aface, neutra em sonhos
da máscara além da incrua pele.

Face ciente do não ser,
ímpar da consciente superfície.

Vai-te, mente, pro nascer
do mar dormente infictício

Afronta-se a fronte
que é não sendo
e, sob acalento,
desfaz-se.

Sário Ferreira - 05/10/2012


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Inconstâncias de um Virtualista

Marco as dores
Programadas permanente(mente)
Num local sem opções.

Post(e)s sem luz
Agem destitulados
Na pública individualidade
De dedos incoerentes,
À salvo da culpa (e até pela [por ela]),
Manipulados, não pela mão,
Mas pelo Mestre Invisualizável:
que vive no fechado,
isolado e responsável.

Conheça estes primos:
O Escreve e o Escravo...
Homem - Tempo - Mundo - Leem.

No fim, figuram-se ações,
Às luzes ausentes
Dos mesmos Post(e)s
Ativos, Atores,
Altivos, Autores,
Tão vivos, tão flores,
Tão servos, tão dores.

Sário Ferreira - 05/09/2012



segunda-feira, 16 de julho de 2012

Sintai e Assintai

Um profeta, vulgo Aurículus, me diz:
Carro, fungo, folha, tosse, passos, sussurros, alarme, risco.

Um outro, muito visionário, me fala:
Carteiras, quadro, folha, identidade, caneta, borracha, lapiseira, chão, teto e porta.

Um terceiro, em mal estado, tenta me sussurrar:
Congestionamento, ar e mais nada.

Um quarto, meio faminto e acidentado há pouco, me pontua:
Sangue de um corte no céu e saliva.

Um quinto, vestido de peles, me proclama, inquieto:
Testa, lapiseira, aliança, roupas, carteira, papel, chão e brisa.

E um último profeta, vítima e vitimador de todos os outros cinco, me grita:
Ansiedade, saudade, sonhos, tédio, falta de criatividade, vontade de levantar e incômodo.

Em uníssono, dizem os profetas (os meus, pelo menos) que viver é isso:
navegar num mar de nomes sentidos, transitáveis e pluriformes,
e tecê-los um único que se traduz no milésimo de um momento,
multipla e redundantemente, até o deitar sem sentido da mente.

Endoida-te, Ser Humano, pois é teu direito por sentir tanto.

Sinto muito...

Sário Ferreira - 15/07/2012